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Eu também comi o pão que o Buda amassou.

Em 18/05/2009

*Amanhã postarei o vídeo do show em Brasília! ;)

No ano passado eu participei de um retiro espiritual por 10 dias, meditando 10 horas por dia, com voto de silêncio. Sim, isso mesmo, sem poder conversar.
A pena é que no meu currículo não cabe nem vale colocar 100 horas de meditação. Mas se eu fosse o patrão, na hora de contratar, daria grande valor para uma vivência como essa.
Não vou, ainda, contar minha experiência nesse retiro pra vocês, mas me identifiquei muuuito com a experiência da Nic (texto abaixo), uma monja que relata 4 dias num retiro Zen Budista.
O texto é incrível, vale muito a pena ler. Se você já vivenciou algo parecido vai se identificar e até morrer de rir, se ainda não vivenciou, é uma grande oportunidade de imaginar essa bela e árdua experiência.

4 dias num retiro Zen Budista

Não foram 4 dias maravilhosos. Não foram. Foram dias áridos, secos e de muitos, mas muitos diálogos internos. Eu comi o pão que Buda amassou.

No Zen Budismo não se faz meditação. Se faz “zazen”. Zazen, literalmente, significa sentar Zen. O objetivo do zazen é simplesmente sentar. Sentar completamente alerta, sem se apegar aos pensamentos. “Abra mão dos pensamentos”, Monja Coen dizia. “Não converse”.
Foram 10 zazens por dia de 30 e 40 minutos cada. Eu disse DEZ. Cerca de 6 horas de zazen por dia. Em vários momentos eu xinguei Buda. Sim, eu xinguei. Xinguei a mãe, a minha e a dos outros. E a de Buda também.
Conclusão a que cheguei no 1° dia: O que eu tô fazendo aqui??

O 1° dia foi como um tratamento de choque. Eu me senti como uma drogada em processo de desintoxicação. E eu estava ali me desintoxicando dos meus pensamentos, da minha forma de pensar. Confesso que um dia antes de ir ao retiro eu pensei em desistir. “Sensei, então, não vai dar pra ir. Tenho muita coisa pra fazer aqui, sabe como é…”. Vou, não vou, vou, não vou. Vou. Fui.
A nossa mente é uma coisa. Tão complexa, tão intrincada, que será eternamente um objeto de estudo da ciência. Somos seres condicionados. Desde sempre condicionados. Viciados em pensar. Viciados em pensamentos dicotômicos. Isso é feio, isso é bonito, ela é inteligente, ela é burra, ele é gordo, ele é magro, eu tô triste, eu tô alegre, minha vida é boa, minha vida é ruim, eu queria ser assim, mas eu não sou assim, eu queria que minha vida fosse assim, eu queria que minha vida fosse assado, se eu tivesse feito isso eu teria mudado minha vida, seu tivesse falado aquilo naquela hora, se isso, se aquilo, se nao isso, se não aquilo se se se se se sesesesesese blá blá blá aaahhh. É uma forma de pensar exaustiva. Somos grandes auto-sabotadores. Todos os 3 dias de retiro eu pensei: “Hoje eu vou embora. Vou dizer pra Sensei que minha mãe ligou ou dizer que aconteceu um imprevisto e terei que sair antes, isso, aconteceu um imprevisto é uma excelente frase, sem explicações, simplesmente um imprevisto, ok”.
No 2° dia a rejeição foi tamanha que eu gripei. Gripe braba mesmo. Desintoxicando. Bom, tudo bem que nos dias anteriores eu dormi tarde, acordei cedo, trabalhei, dei várias aulas, pensei loucamente em todas as coisas do meu mundinho, gastei uma energia impressionante apenas pensando. E lá no retiro tudo veio à tona, sem falar que era muito exaustivo física e mentalmente. “Vou dizer pra Sensei que a gripe tá atrapalhando meu retiro e que vou embora depois do almoço, isso, vou fazer isso. Eu podia estar tomando um café na Livraria da Vila, não, eu podia estar lendo aquele livro que tá ótimo, isso, vou embora hoje”.
Um detalhe: o zazen é feito de frente pra parede com os olhos semi-abertos. E não há objeto de concentração. Simplesmente sentar. Ser você. Estar conectado com tudo. Estar alerta. Não agarrar os pensamentos. Ser. Apenas Ser. Ah, Beleza! Só isso? Tá bom, vamos lá. Lá pelo 5° zazen do dia eu já chegava xingando a parede. Já sentava sabendo que vinha chumbo grosso nos próximos 30 minutos de zazen. Mas chumbo grosso mesmo. Chumbo grosso da minha mente. Eu fui minha carrasca mais sádica no retiro. Eu não me deixei em paz. Eu questionei tudo e todos. Eu joguei na minha cara tudo o que eu podia, culpei todos por várias coisas, tive sentimentos nada altruístas, pensamentos nada búdicos. Usei das armadilhas mais criativas pra sabotar o zazen de cada dia. Eu sabotei todos os meus zazens até o 3° dia. “Bom, vou fazer o mantra om pra minha mente calar a boca, sempre funciona. Om om om ommm esse sino não vai tocar, não? Encerra logo esse zazeeeennn”. Om om om ommm blá blá blá. TOCA ESSE SINO, PÔ!
Entre um zazen e outro tivemos práticas de Yoga. Ufa. A monja Coen me convidou para dar as práticas. Foi uma honra. Um convite irrecusável… participar do retiro da Sensei no seu templo no Pacaembu e dar as aulas de Yoga. Jamais eu recusaria. “Sensei, aconteceu realmente um imprevisto, vou ter que ir embora. É, pois é, uma pena, uma pena mesmo, mas terei que sair. Mas e o meu compromisso com a Sensei de dar as práticas de Yoga? E agora? Mas eu tô gripada, ninguém merece 10 zazens por dia (é, DEZ) com essa gripe. Vou embora hoje”.
Mais um zazen, ô parede IN-SU-POR-TÁ-VEL. Blá blá blá blá blááá. Sino, please. Sinooooo. Buda, você me paga, te pego lá fora. Ardilosa, a mente tentava de tudo que era jeito se manter no comando como ela sempre fez, falando, falando, falaaaando. Ai, tô com vontade de gritar, de chorar, quero mexer minha perna, ai minhas costas, maldita dor no meio das costas. Ainda faltam 2 dias dias. Caramba, 2 dias. O que significa mais 25 zazens, contando com as que restam hoje. Om om om, blá blá blá. Toca o sino, que inferno.
Imagine que no dia anterior sua vida está assim: %$%%$$$@@#####*&¨%%%@@%&&*&****$$##**. E no dia seguinte tem que lidar com a vida assim: ……………………………………. Imagine que no dia anterior a trilha sonora da sua vida é The Chemical Brothers no último volume. No outro dia é silêncio e nada mais do que o silêncio. Pois é. E a trilha sonora da minha mente me detonou.
Não era pra conversar com os outros participantes. Mas a mente sabotadora obviamente puxava conversinha. Johnny, você vai ficar o retiro todo? Vou, Nic, vou ficar até 3a. feira. E voce? Eu também. Huhauahaua!
3° dia
Mais gripe. Mais piração, diálogos internos infernais, auto-sabotagem. Ensabota, mulata, ensabota, ensabota, tô me ensabotaaaaando! Om om om om sino sino sino dor dor dor dor vou embora vou embora vou embora. E esse cara do meu lado que nao se mexe, eu hein, só eu me mexo? Só eu não consigo ficar imóvel?? Blá blá blá dói dói dói. Parede, vê se não me enche. Om om om. Nariz escorrendo, espirros incessantes, olhos lacrimejando, parede, parede, parede. Eita, olha um elefante na parede. Caramba, isso parece uma rã com olhos arregalados, isso eu não sei o que é, mas parece um alienígena, sei lá, hummm aqui é um cachorro com focinho grande, isso eu não consigo identificar, bem que podia fazer um personagem de quadrinho com essa imagem, caramba, nunca vi essas imagens antes e a parede tá cheia delas, podiam ser personagens de desenhos! Blein, blein, blein! Ufa, almoço.

4° dia
Algo aconteceu. Eu pensei tanto, mas tanto, que acho que esgotei todos, quer dizer, quase todos, os pensamentos. 1° zazen do dia…aaahhhhh, que maravilha. Mente quieta, coluna ereta, o coração tranquilo. Oi, parede. Te amo! Buda, você é tudo. Aiai silêncio ……………………………………. nossa, mas se eu não pensar, eu vou fazer o que então? Quase não tô pensando… mas seu eu não pensar eu vou ser o que, eu vou fazer o que? “Abra mão dos pensamentos”. Nenhum om sequer. Nada… ai que gostoso …………………………………. é isso, é isso! Simplesmente Ser, estar, sem julgar, sem comparar, sem questionar, sem objeto de concentração, sem me sabotar, sem me culpar, sem achar que sou isso ou sou aquilo …………………………………. 2° zazen: aiai ……………………………………. 3° e ultimo zazen do retiro: ………………………………………. que maravilha, que retiro maravilhoso, por que a gente sofre tanto com os nossos pensamentos? Pra onde eles nos levam, o que conseguimos pensando tanto, pra que? Por que nos identificamos tanto com os nossos pensamentos? Por que nao conseguimos simplesmente Ser? ……………………………………………………………………………………………………..
Fim do retiro
Chorei muito. Chorei de alívio por ter acabado, por eu ter sobrevivido, mas por eu ter conseguido por alguns instantes apaziguar a mente… ou será que foi ela por si só que se apaziguou? Chorei por eu ter conseguido abrir mão, por poucos momentos que fossem, dos meus pensamentos. Eu consegui não agarrar meus pensamentos. Obrigada, muito obrigada. Tudo é tão mais simples, a gente cria tantos monstros desnecessariamente. Ser, simplesmente Ser. Nossa. Obrigada. Obrigada. Obrigada.
Saí do retiro num estado tal que só quando cheguei em casa me dei conta de que meu amado all star branco, companheiro de todos os dias, não estava em meus pés, ele tinha ficado no retiro. Humm, que havaiana bonita essa…peraí, mas essa havaiana nem é minha! hahaha
Agora é que vem o grande desafio. Cultivar o zazen sozinha, sem a Sangha, sem o grupo. Sentar. Ser. Simplesmente sentar e Ser. Um pouco todo dia, um sádhana, uma prática. Só sentar. De frente para a parede. Simples assim, difícil assim. Transformardor assim.
“Que os méritos de nossa prática se estendam a todos os seres e que possamos todos nos tornar o Caminho Iluminado”.

Categoria: Atitude Vida

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Comentários

  1. Rodrigo says:

    Gostei muito de suas declarações realísticas.
    Estou tomando coragem para ir em um retiro espiritual.
    Obrigado.

  2. Isabela says:

    E agora, vou ou não vou?

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